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Nós duas!

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Dia desses apareceu aqui no meu portão. Até me assustei, há tempos não nos víamos, nem nos falávamos. Depois do nosso último infeliz encontro achei que a distância seria mais apropriada. Chegou com cara de quem queria desabafar, como se algo a incomodasse muito. Fiquei sem reação a princípio, mas, com certeza, gostei da visita inesperada. Tanto que não consegui disfarçar o sorriso maroto no canto da boca, nem o brilho no olhar… e deveria ter feito! Sem pensar muito, nem deixá-la falar sobre a vinda, a abracei. Suspirei em seu ouvido e isso fez com que chorasse baixinho. Senti o soluço retido no peito como que querendo esconder um sentimento doído. Ao fim, ela também apenas suspirou… Ainda sem trocarmos nenhuma palavra, abri o portão e ela entrou, foi até a sala e sentou no sofá. Com as mãos delicadamente postas nos joelhos ela me olhou. Já estava com lágrimas prestes a cair quando limpou orgulhosamente a face. A fitei por um tempo, observei seus cabelos mexerem com o fra...

Eu encho o saco!

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Descobri recentemente um texto de Martha Medeiros que me instigou muito. Gosto demais do trabalho dela, leio textos aleatórios, livro mesmo ainda não possuo – confesso com certa vergonha. Mas este texto… ah!  “Não canse quem te quer bem” é o título. Ele detalha diversas situações em que somos inconvenientes e cansamos, por banalidades, pessoas que nos estimam. Me identifiquei não pelas passagens em si que ela expõe, mas, com o título mesmo. Esta semana, inclusive, cansei alguém que me ama. Na verdade, acho que faço isso com mais frequência do que eu gostaria e consiga confessar. O pior é que, como ela coloca, é como um ímpeto quase impossível de segurar. Bom, em minha defesa alego que isso acontece não com o objetivo de gerar discussões ou mal estares.  É mais como uma forma de chamar atenção, ou ainda, como Martha coloca, que as ‘Implicâncias quase sempre são demonstrações de afeto’. No meu caso, anseio por este afeto alheio… um ponto positivo, ainda tentando não m...

Para o amor não encontrado

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Nas cartas que trocávamos desde a época em que ela se mudou, de tudo escrevíamos. Ali não sentia nenhum constrangimento. Recordava lembranças de infância, a saudade que sinto dos meus distantes, as frustrações que tenho por imaturidade minha e as confusões sentimentais que me atormentam nas noites mais longas. Na verdade este é o assunto mais abordado, tanto por ela quanto por mim mesmo. O tema comum me conforta, saber que tenho companhia na dúvida me faz entender que sozinho não estou. Me fazia bem ler nas linhas espaçadas aquela letrinha dela tão bem feita, desenhada, diferente das padronizadas e frias das telas do computador. Sim, sou adepto ao retrô (mais charmoso de se dizer). O envelope sempre vinha com algum detalhe diferente do anterior. Ou era uma letra, sinal ortográfico ou mesmo um pequeno desenho mal feito, mas, delicadamente colocado de propósito. Geralmente era como um código que eu esperava ansiosamente para decifrar. Na carta os elementos nem sempre eram fáce...

O que nos faz falta

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O sol brilhava forte, quase não conseguia abrir os olhos pela incomoda claridade; mesmo assim, este contato era uma dos momentos que ele mais apreciava. Há algum tempo este era o instante em que ele sentia-se vivo, o calor o fazia lembrar de quando podia ser livre… As peças do dominó nas mãos já suadas aguardavam sua vez para serem dispersas. Era um jogo monótono mas fazia o tempo passar com menos lentidão naquele imenso calabouço em que ele se encontrava. A diversão patética que o simplório jogo lhe proporcionava também lhe mantinha pensante, era um lugar em que a insanidade o alcançava com rapidez e silenciosamente. Lembrava os motivos pelos quais estava ali, sabia que havia justificativa, porém, sempre se sentia inconformado pela distância daqueles que lhe eram queridos. Esta época então era mais dolorida. Recordava das luzes diversas espalhadas pela cidade, dos enfeites cuidadosamente escolhidos para celebrar data tão importante, do cheiro do assado no forno que era prep...

Sua honrosa partida

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Antes de partir deixou um antigo baú de madeira. Fez questão de me entregar pessoalmente e em mãos (não literalmente né, era enorme). Já velho, pesado, o baú era guardado, naqueles tempos, ao lado da cama. Sempre achei que tinha um mistério envolvido ali, nunca me disse o que guardava nem como o obteve, ele apenas existia e por ali ficava. Então, no dia que resolveu ir embora deixou para trás essa relíquia; não um abraço, muito menos um beijo e nem a explicação de sua partida, apenas o baú. Curiosa menos do que intrigada, tentei abri-lo, mas, estava fechado com um cadeado bronze. Também aparentando ser bem antigo, o cadeado tinha traços em ouro, como se fossem desenhos sem formas, muito bonito. Daí minha vontade de não quebrá-lo. Mas, sem a chave pouco me restava. Sentei ao lado dele e tentei imaginar o que seria mais importante do que a presença dele que, foi embora mas, me deu a companhia daquela caixa de madeira. Ainda mais num momento como esse em que a decisão de sua pa...

Fortaleza

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As pequenas e belas pétalas que caem ao chão enquanto as folhas balançavam as copas me lembrou do quanto eu tinha a agradecer. Enquanto passeava pela estradinha do parque percebi a beleza que começa neste período. Coincidentemente é uma época muito especial por aqui… Resolvi dar-me este tempo a sós. Repensar qualquer coisa necessária… Os bancos estavam convidativos, o tempo fresco, difícil acontecer aqui, mesmo à noitinha. Não se via a lua e apenas raras estrelas. Foi nesse momento tão calmo que algo inquietante me surgiu no peito. Como esses dias são importantes! Sim, é neste período que comemoro ‘você’, intimamente ainda mais fervorosa! De várias formas mas com a mesma intensidade de três anos atrás, de quando me vi envolvida nos seus braços dançantes e abraços conquistadores… Ao longo dessa convivência sua presença se tornou especial. Sua calma me acalenta, sua paciência me surpreende, sua postura me ensina. Não esperaria menos deste sentimento que cresce comigo. ...

Recordações

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Dia desses estava garimpando algumas fotos bem guardadas no fundo do armário para montar um álbum. Lembro que quando eu era mais nova era uma diversão ver álbuns… De formatura, casamento, bebês; geralmente eram temáticos. Deles saíam cada história! Lembranças mesmo. De quando a tia veio passar o Natal e reuniram-se para uma ’pastelada’ em família, ou do cachorrinho novo que conquistou todos na casa, da amiga antiga que hoje não sabe-se onde está… Fotos desconexas, sem ângulo, às vezes sem foco (tínhamos que revelar todas) e o mais importante pra mim: sem pose! Como é chato esse negócio de montar um cenário para tirar foto. Isso acontecia, antigamente,  quando ia-se em estúdio e fazia um book, com um profissional e tal, mas hoje não, é sempre arrumado, não tem mais espontaneidade, é tudo montado.   Arruma o cabelo, ajeita a manga do vestido, vira o rosto para que o melhor lado saia na foto… Que coisa chata, sem graça! O legal era ver a risada de boca aberta mostrand...