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Estamos sempre atrasados

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Estamos sempre atrasados. Já pensou nisso? O encontro marcado há meses, naquele café charmoso, que serve a única chipa deliciosamente assada lentamente em forno à lenha, pode ser motivo de um desgaste imenso porque conseguimos nos atrasar para estes pequenos prazeres.  O caos da rotina fez-me dormir tarde ontem, rolando na cama atrás de soluções para problemas imaginários. Em consequência meu despertador cansou de alertar-me da necessidade de levantar e meu ouvidos teimosos sequer sentiram alguma vibração desse som alarmante. Quando me dei conta de que há minutos o sol batia ardido em minhas bochechas, amassadas pelo lençol frio de cetim, levantei num susto, de uma vez só! Isso piorou a situação, tonteei! Tentei me segurar na cadeira de madeira que me apoia nos estudos noturnos (que são mais raros do que eu gostaria) e escorreguei. As roupas jogadas diariamente ali, acumuladas por dias, me tiraram a segurança que eu achei que encontraria no encosto da cadeira. Novamente me levanto....

Nosso tempo é realmente nosso?

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Era começo da noite. Aquele dia pareceu-me ter menos horas do que o normal. O batente da porta que dava diretamente para a rua de casa era, nos últimos meses, meu maior confidente. Parava ali, por horas, pensando comigo, em companhia apenas dele mesmo, e observando o que se pouco vê: o tempo. Como eu disse, aquele dia passou tão depressa que não me vi, não te vi, nada vi, na verdade. Sabe que isso tem sido um hábito não só meu, mas de uma massa. O caos que a gente mesmo insere na vida rouba-nos tempo que a gente jura ser para poder viver mais coisas. É mesmo? Entendendo o quanto isso me custaria, sentei no velho, guerreiro e presente batente e pus-me a detalhar mentalmente o que eu acho que já sei: o que me custa e ando pagando caro por tão pouco. Confuso mas, na real, nem é. Só é caótico porque me puxa para uma responsabilidade que não sei se estou preparada para confirmar ser minha. Penso que vivo medindo o fim do meu dia, como aquele, já iniciando a noite com a cabeça nas próximas 2...

Já era você em mim...

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A cafeteria estava cheia naquela tarde. Bem, cheia em comparação aos dias anteriores; eu estava ali também nos dias anteriores. Naquela quinta, nem quente nem fria, o cardápio dava destaque aos biscoitinhos de canela assados. Lembro bem disso porque, os tais biscoitinhos estavam saindo do forno. Aroma doce e levemente picante pairou no ar, e foi neste exato momento que escutei o sininho da porta.  Sim, é uma cafeteria de bairro, antiga, com seus vitrais mais foscos pelo passar dos anos do que descuido firmado ou limpeza sem frequência. E em sua porta de madeira, além do ranger comum das dobradiças mais antigas do que as xícaras de porcelana branca, ela ainda tinha aquele charmoso e clichê sininho acima da porta, aqueles que marcam a entrada bem-vinda de um novo cliente ou saída que deixa notícias tristes... E naquela quinta, o tilintar do sininho me envolveu com o calor que me chegou doce, da canela, dos biscoitinhos e da sua entrada – avisada – mas sem olhares a notar. A não ser o...

A saudade me pegou distraída numa terça-feira chuvosa de maio

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Um dia a saudade me pegou totalmente distraída e foi nesse dia que me senti mais acalentada do que há tempos não acontecia. Se eu te disser que ela veio numa tarde de domingo, aquela em que o sol está saindo de cena, deixando uma pintura lírica no céu, com tons de lilás, quase como uma pintura de Van Gogh, eu estaria cometendo uma falácia. Até porque, se assim fosse, ela me pegaria atenta, é um bom dia para se sentir nostálgica. Mas não, ela veio num dia completamente aleatório, era uma terça-feira, segunda semana do mês de maio, com chuva. Acho que foi aí que me pegou: a chuva. Essa tem mesmo uma magia por trás dos seus feitos. Aquele cheirinho subiu, o barulinho que vem a cada tilintar das gotas na calha de casa me fizeram até desconsiderar que nem era tempos de terra molhada. A sensação da brisa leve que veio com a manifestação do céu, trouxe-a: a saudade. Saudade de me sentir sem culpa. Culpa por não estar sendo produtiva como esta era nos impõe, por exemplo. A cada minuto ...

Se você me perguntar o que vim fazer aqui, prontamente digo: dançar a vida!

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É preciso ter muito claro o que nos move, o que nos deixa reflexivos, o que nos entristece grandemente e o que nos alegra sem medida. Muitos chamam isso de autoconhecimento. Sim, o é... mas acho que vai além. Se conhecer esbarra no que se consegue viver e absorver das experiências que se passa. E isso também está ligado com a convivência, sabe? Consigo, ‘sem sigo’, com outros... Cada momento, seja ele um dia único, um evento, uma flor que cai e você nota ou que seja uma pessoa que lhe chega como uma surpresa gostosa... cada momento tem um significado e saber interpretar pode construir uma vida de viveres! Rasamente parece clichê, ou pior: mais do mesmo... mas o banal realmente é falar disso, a ideia aqui é identificar se está fazendo, praticando. Dançando a vida. Como ela vem, com a melodia que ela coloca. Sabe que temos a escolha de trocar o disco, não? Ah, disco, vai!... além de ser nostálgico, traz um quê de pessoa cult e, além disso, tem um resgate familiar nessa fala. Pense na tri...

A verdade mesmo é que ninguém está realmente pronto pra cuidar de quem foi abrigo

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No fundo da verdade mesmo, e que muitas vezes procuramos não pensar a respeito, é que tem situações na vida que seremos surpreendidos. Será assim: de repente, chega como um furacão, sem aviso, só com sua imensa urgência. Eu achei que me preparava há anos, que considerar todas as situações imagináveis seria uma forma de me ver alerta e pronta. Enganei-me total e profundamente. Há nuances tão profundas que não inalcançáveis que só são acessadas quando vivenciadas no âmago do acontecimento. Vivemos uma parceria linda, com distrações devidas, com respeito mútuo e alegrias infinitas. Nosso encontro sempre foi tema em rodas de amigos e familiares. Somos um equilíbrio, costumávamos brincar que nos assemelhávamos à yin e yang, sabe? Aquele conceito chinês que descreve duas forças opostas, mas totalmente complementares, que interagem e se apoiam... Conceito de preto e branco: elegante, versátil, complementar... Nós! Isso perdurou a vida, a nossa vida juntos. Mãos sempre juntas ao caminhar, aind...

Eu odeio você e essa é a forma mais legítima de mostrar que te quero

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Eu odeio você. E isso acontece tão diariamente. Odeio estar perto de você. Cada vez que nos encontramos aumenta ainda mais o meu desgosto, e aqui vai parecer ambíguo: esse sentimento todo é justamente porque me faz sentir tão bem que chego a me culpar por isso. Não quero te ver! Acaba por me chamar, por me aguçar os sentidos, me clamar presença e eu simplesmente vou. Não sei se é apenas o comando em si, o fato de mandar e eu deliberadamente só atender, até porque eu mesma o quero! Ou a lembrança do seu cheiro que perpetua em mim, que fica impregnado na minha pele a cada vez que toca sua, e isso me leva ao delírio em noites nas quais não estamos juntos. Pode ser também que é pelo fato de que me deseja, e isso com certeza me basta para encontros nus e nada silenciosos. Eu odeio você só porque você me descobriu sozinho, sem que eu tivesse que impor qualquer detalhe à sua frente. Veio a mim como um presente, mais seu do que meu, sabemos! E ainda assim eu abro os braços como quem quer l...