Postagens

Acho que chegamos cedo demais para o nosso compromisso

Imagem
Não sei se inicio esta carta com um ‘bom dia’, ‘boa tarde’ ou ‘boa noite’. O tempo é tão efêmero que essas expressões que tentam denotar uma fração dele mesmo acabam ficando inúteis. Principalmente porque não sei exatamente quando vai abri-la... de qualquer forma, deixemos os cumprimentos de lado, apesar de que eles realmente aqui cabem, não temos mais a intimidade de antes... Lhe escrevo mesmo porque eu tinha que me posicionar. Não que já não tivesse feito em tempos outros, mas acho que todas as outras vezes o fiz mais como uma brincadeira de quem manda na situação do que de quem quer, realmente, colocar o que sente às claras. Escolhi essa forma, unilateral (até certo ponto, sei) para que não me chegue imediatamente com seus argumentos convincentes e me faça mudar de ideia. Preferi nem escutar sua voz para que minha firmeza se estabeleça e não se encolha na primeira nota que me fizer escutar. Em algum tempo de nossa juventude nos gostamos por demais. Sei disso porque eu estava lá, e v...

Garota com cheiro, gosto e cor de canela!

Imagem
Acabei mesmo te amando pra sempre, não é? Sabíamos que isso ia acontecer. Sentíamos que ia ser assim. Não dividíamos somente a cama, mas a certeza de que eu te amaria para a vida inteira. Garota com cheiro, gosto e cor de canela! Adocicada, suavemente quente, na medida, na minha medida. Você, menina, me gravou a alma. Nesta e nas futuras ainda terei sua deliciosa impressão em mim. Eu sei, você me avisou para não me prender, e eu sei que disse estar devidamente avisado, mas isso não mudou em nada o que eu sentia. O aviso era para que eu tivesse que sentir menos, que querer menos, que desejar menos. Impossível, definitivamente. E isso fui eu quem te avisei! Já te falei que tem gente que é só uma vez na vida. Você é minha única. É uma saudade infinita. Não só da presença, mas da sensação que me acometia toda vez que você atendia a um telefonema meu. Ou toda vez que aceitava sair comigo, nem que fosse apenas uma volta aleatória. Ter você em pequenas partes, em pequenas doses, foi suficient...

Você foi meu disco inteiro

Imagem
A gente claramente se quer. E esse fato, ainda que emocional, dói na carne. Dói porque não podemos torná-lo palpável a ponto de nos querermos e nos termos. Entenda, meu bem, nos querermos não é um problema, efetivamente. O que nos impede aqui é o excesso de realidade, aquela da qual prometemos fugir sempre que nossos encontros eram só nossos, em segredo. Temos compromissos que não nos pertencem em comum. Saímos de uma pequena possibilidade, de uma hipótese distante, sem data de escolha, e passamos a ser decisão perigosa; e deliciosa.  Lembrar de você me faz discordar diariamente das pequenas imposições que eu assumi como minhas, me faz querer desatar qualquer compromisso que me coloquei a firmar... era uma outra vida, outro olhar, àquela época achei que isso seria eterno. Medi minhas vontades pela necessidade de viver uma vida que claramente não é minha.  Você é: minha vida e meu. Pois bem, meu bem, não é falta de querer, dá pra ver. Mas somos de outros, e os outros nos têm pe...

Estamos sempre atrasados

Imagem
Estamos sempre atrasados. Já pensou nisso? O encontro marcado há meses, naquele café charmoso, que serve a única chipa deliciosamente assada lentamente em forno à lenha, pode ser motivo de um desgaste imenso porque conseguimos nos atrasar para estes pequenos prazeres.  O caos da rotina fez-me dormir tarde ontem, rolando na cama atrás de soluções para problemas imaginários. Em consequência meu despertador cansou de alertar-me da necessidade de levantar e meus ouvidos teimosos sequer sentiram alguma vibração desse som alarmante. Quando me dei conta de que há minutos o sol batia ardido em minhas bochechas, amassadas pelo lençol frio de cetim, levantei num susto, de uma vez só! Isso piorou a situação, tonteei! Tentei me segurar na cadeira de madeira que me apoia nos estudos noturnos (que são mais raros do que eu gostaria) e escorreguei. As roupas jogadas diariamente ali, acumuladas por dias, me tiraram a segurança que eu achei que encontraria no encosto da cadeira. Novamente me levanto...

Nosso tempo é realmente nosso?

Imagem
Era começo da noite. Aquele dia pareceu-me ter menos horas do que o normal. O batente da porta que dava diretamente para a rua de casa era, nos últimos meses, meu maior confidente. Parava ali, por horas, pensando comigo, em companhia apenas dele mesmo, e observando o que se pouco vê: o tempo. Como eu disse, aquele dia passou tão depressa que não me vi, não te vi, nada vi, na verdade. Sabe que isso tem sido um hábito não só meu, mas de uma massa. O caos que a gente mesmo insere na vida rouba-nos tempo que a gente jura ser para poder viver mais coisas. É mesmo? Entendendo o quanto isso me custaria, sentei no velho, guerreiro e presente batente e pus-me a detalhar mentalmente o que eu acho que já sei: o que me custa e ando pagando caro por tão pouco. Confuso mas, na real, nem é. Só é caótico porque me puxa para uma responsabilidade que não sei se estou preparada para confirmar ser minha. Penso que vivo medindo o fim do meu dia, como aquele, já iniciando a noite com a cabeça nas próximas 2...

Já era você em mim...

Imagem
A cafeteria estava cheia naquela tarde. Bem, cheia em comparação aos dias anteriores; eu estava ali também nos dias anteriores. Naquela quinta, nem quente nem fria, o cardápio dava destaque aos biscoitinhos de canela assados. Lembro bem disso porque, os tais biscoitinhos estavam saindo do forno. Aroma doce e levemente picante pairou no ar, e foi neste exato momento que escutei o sininho da porta.  Sim, é uma cafeteria de bairro, antiga, com seus vitrais mais foscos pelo passar dos anos do que descuido firmado ou limpeza sem frequência. E em sua porta de madeira, além do ranger comum das dobradiças mais antigas do que as xícaras de porcelana branca, ela ainda tinha aquele charmoso e clichê sininho acima da porta, aqueles que marcam a entrada bem-vinda de um novo cliente ou saída que deixa notícias tristes... E naquela quinta, o tilintar do sininho me envolveu com o calor que me chegou doce, da canela, dos biscoitinhos e da sua entrada – avisada – mas sem olhares a notar. A não ser o...

A saudade me pegou distraída numa terça-feira chuvosa de maio

Imagem
Um dia a saudade me pegou totalmente distraída e foi nesse dia que me senti mais acalentada do que há tempos não acontecia. Se eu te disser que ela veio numa tarde de domingo, aquela em que o sol está saindo de cena, deixando uma pintura lírica no céu, com tons de lilás, quase como uma pintura de Van Gogh, eu estaria cometendo uma falácia. Até porque, se assim fosse, ela me pegaria atenta, é um bom dia para se sentir nostálgica. Mas não, ela veio num dia completamente aleatório, era uma terça-feira, segunda semana do mês de maio, com chuva. Acho que foi aí que me pegou: a chuva. Essa tem mesmo uma magia por trás dos seus feitos. Aquele cheirinho subiu, o barulinho que vem a cada tilintar das gotas na calha de casa me fizeram até desconsiderar que nem era tempos de terra molhada. A sensação da brisa leve que veio com a manifestação do céu, trouxe-a: a saudade. Saudade de me sentir sem culpa. Culpa por não estar sendo produtiva como esta era nos impõe, por exemplo. A cada minuto ...