Estamos sempre atrasados


Estamos sempre atrasados. Já pensou nisso?

O encontro marcado há meses, naquele café charmoso, que serve a única chipa deliciosamente assada lentamente em forno à lenha, pode ser motivo de um desgaste imenso porque conseguimos nos atrasar para estes pequenos prazeres. 

O caos da rotina fez-me dormir tarde ontem, rolando na cama atrás de soluções para problemas imaginários. Em consequência meu despertador cansou de alertar-me da necessidade de levantar e meu ouvidos teimosos sequer sentiram alguma vibração desse som alarmante. Quando me dei conta de que há minutos o sol batia ardido em minhas bochechas, amassadas pelo lençol frio de cetim, levantei num susto, de uma vez só! Isso piorou a situação, tonteei! Tentei me segurar na cadeira de madeira que me apoia nos estudos noturnos (que são mais raros do que eu gostaria) e escorreguei. As roupas jogadas diariamente ali, acumuladas por dias, me tiraram a segurança que eu achei que encontraria no encosto da cadeira.

Novamente me levanto. Só nesta fração de minutos de uma manhã qualquer, em que era apenas para honrar o horário de um encontro marcado há tempos, me levantei por duas vezes.  Então, abro o chuveiro com intuito de deixar a água descer e esquentar antes que eu entrasse. Enquanto isso já escovo os dentes. Ou tento; não acho a pasta que deveria estar no lugar, a lado da escova. Putz! Lembrei que da última vez que escovei os dentes a pasta acabou e fiquei de pegar outra caixinha na dispensa de produtos de limpeza. Justo hoje.

Corro ao encontro da tal pasta. Passo na escova e, achando que ela poderia fazer o serviço sozinha, uso as mãos para arrumar o cabelo num coque mal feito, a intenção era apenas sair de casa e chegar no tal café! Por que sempre atrasados?

A impressão é que é um caos acumulado e sem sentido!

Finalizei; pelo menos a higiene matinal costumeira já estava feita. Olho no relógio de pulso que insisto em comprar e nunca sei decifrar (costumo dizer que tem que pensar demais em lembrar os números romanos, afinal, por que o relógio é com esse tipo de número?), sem ter noção de que horas eram (já que pra mim o relógio é apenas um complemento sem função) pego o celular na bolsa pra conferir quantos minutos estou atrasada. 

Andando a passos largos e com o olho grudado na bendita tela do celular, sinto um imenso empurrão. Escuro. Abro os olhos e consigo ver apenas o céu azul, sol entre nuvens, não parece que vai chover, ainda que seja fevereiro... e assim continua meu devaneio. Me dou conta de que estou tendo essa perspectiva do céu justo e somente porque estava no chão! Com muito custo e morrendo de vergonha, tento me sentar e entendo que fui atropelada por um ciclista. Cadê meu celular? Embaixo da perna do meu atropelador, em lado oposto ao capacete dele, achei o aparelho. Cato sem jeito, anotando o telefone dele para posteriormente entendermos o que aconteceu. Estava um tanto quanto atrasada, não podia me dar ao luxo de machucar num atropelamento ridículo no meio da faixa central.

Bato as mãos nos joelhos da calça, denunciantes do encontro com o cara da bicicleta, tento amenizar a sujeira e marcas que ficaram. Mais de uma hora, estava atrasada em mais de uma hora. Como moro há poucas quadras, vou a pé com o intuito, inclusive, de curtir o caminho. Mas quem disse que isso acontece de fato? O celular não para de acusar mensagens chegando, o e-mail tem alerta de mais de 20 não lidos na caixa de entrada e ainda enfrento mais três faixas de pedestre, melhor ficar é de olho das duas rodas que costumar passar voando. Nada além disso me chama atenção, nem mesmo o fato de que estou atrasada em mais de uma hora e ninguém me procurou, não estranharam o fato de eu não ter chego ainda?

Pronto, avistei a portinhola de madeira antiga, charmosa e rústica, onde deveria ser o tal encontro. Paro uns minutos antes de entrar, procuro estabilizar a respiração, não parecer tão esbaforida. Arrumo os cabelos que mal se ajeitavam com o passar das mãos que ainda por cima estavam sujas de óleo de bicicleta. A blusa amassada, pelo mesmo motivo da sujeira nas mãos, mas nada alarmante.

O pequeno sino, clichê das portas de cafés antigos, acusa minha entrada. Ajeito o celular na bolsa novamente, e saio a procura das duas que me esperavam. Olho em todo canto do pequeno café, confiro (ou tento conferir) a hora no relógio enfeite de braço, canso de pensar e pego o celular novamente. Nada de mensagem... Ôxi!

Por um único minuto, calmamente me sento na mesinha de canto, a que me dá a melhor visão do estabelecimento inteiro. Respiro, aí sim, respiro. Por um estalo qualquer, procuro a data e não horário. Dou-me conta de que o encontro é no dia seguinte. Sorrio meio abobalhada, achando-me triunfante, afinal, não estava atrasada. 

Depois considerei essa contestação. Por hoje, neste compromisso, não estava mesmo. Mas em quantas situações e momentos pra mim mesma não me vejo atrasada ou relapsa? O tempo é impalpável e justamente por isso é imensamente valioso. Eu só sou o que sou hoje, porque já fui algo ontem, e o que fui, me satisfez? A ponto do meu futuro estar sendo bem construído? Parece insano pensar assim, mas só o que tenho é o que faço agora de mim mesma, e hoje me permiti fazer tudo de qualquer jeito e sem qualquer qualidade porque considerei que meu atraso é constante e contínuo. É simplesmente o normal. 

Estamos sempre atrasados e nem sempre é sobre o tempo. O incômodo que a vida caótica que nos permitirmos ter, nos coloca num tempo de atraso de vivência mesmo. De observância. Nada se torna importante, nem mesmo o tempo que passa, afinal, ele já passou, estamos sempre atrasados, não?

Tirei o relógio do pulso, guardei-o junto com o celular na bolsa. Chamei a garçonete e pedi um café. Preto, simples: só um café. E naquele momento fiz jus ao que eu queria: apenas tomar meu café, sentir a xícara morninha entre os dedos e deixar os ombros relaxados na cadeira. Naquele momento era presente, ou melhor aquele momento foi o meu presente.

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