Nosso tempo é realmente nosso?

Era começo da noite. Aquele dia pareceu-me ter menos horas do que o normal. O batente da porta que dava diretamente para a rua de casa era, nos últimos meses, meu maior confidente. Parava ali, por horas, pensando comigo, em companhia apenas dele mesmo, e observando o que se pouco vê: o tempo.

Como eu disse, aquele dia passou tão depressa que não me vi, não te vi, nada vi, na verdade. Sabe que isso tem sido um hábito não só meu, mas de uma massa. O caos que a gente mesmo insere na vida rouba-nos tempo que a gente jura ser para poder viver mais coisas. É mesmo?

Entendendo o quanto isso me custaria, sentei no velho, guerreiro e presente batente e pus-me a detalhar mentalmente o que eu acho que já sei: o que me custa e ando pagando caro por tão pouco. Confuso mas, na real, nem é. Só é caótico porque me puxa para uma responsabilidade que não sei se estou preparada para confirmar ser minha.

Penso que vivo medindo o fim do meu dia, como aquele, já iniciando a noite com a cabeça nas próximas 24h... entende que nem terminei este e quero o próximo?

A nossa vida é cheia de artifícios para nos proporcionar tempo. Tempo que a gente nem aproveita, não mesmo, não com a qualidade devida, de vida!

Veja bem, a máquina de lavar roupas, hoje, já seca. A roupa sai podendo ser usada, e com a tecnologia dos tecidos, às vezes até sem a necessidade de passá-las. Aqui as matriarcas tradicionais podem escolher dois lados: o de me crucificar, afinal, passaram tanto para poderem ter essa regalia de não ter que levar as roupas a secar nos varais tradicionais, ou, entenderem que isso realmente não quer dizer que elas têm mais tempo de qualidade. 

Num dia atribulado como o de hoje, que me faz querer confessar segredos ao meu batente, também me faz refletir sobre tempo... e se eu tivesse meia hora para estender as roupas que saem da máquina? - que inclusive me avisa quando termina o serviço - poderia respirar e observar o tempo, sem a bagunça de problemas que foi hoje. Só estender roupas. 

Poderia sentir novamente o cheirinho gostoso de roupa limpa, ver o alinhamento no varal, a organização metódica de colocar o cós da camiseta junto com o cós da seguinte, e da outra, e da outra em sequência... para assim, deixar uma ordem lógica ali pelo simples prazer de ver... Posso notar que uma calça desbotou ao longo do tempo, justamente a que mais uso (e isso explica tudo) e reservá-la para um tingimento à parte, ou que falta um botão no vestido de linho e será necessário ajustar uma linha no tom para devolvê-lo ao lugar. Detalhes que quando nos determinamos a viver ‘o agora’ são notados. 

E isso não é sobre tirar as facilidades da vida moderna. É parar de nos enganarmos como se o tempo estivesse sendo bem usado. Afinal, o seu tempo hoje está sendo o futuro que planeja, que deseja, que almeja ou o presente tão agora, tão latente? Entende?

Frio e duro, diga-se de passagem, é este batente deveras desconfortável, afinal faz-me refletir coisas nada rasas. Levanto-me e ponho a água a ferver. Posso apenas ligar a cafeteira na tomada e acionar a tv; há bem boas bagunças passando na tela que podem me tirar da espera que o serviço da cafeteira tem por fazer. 

Mas acho que prefiro aguardar a água chegar lentamente no seu grau necessário para borbulhar, desligar o fogo, achar um pano de pratos para envolver a asa quente da chaleira, despejar no filtro de café antigo e amarelado, cheio de pó e esperar que ela passe por todo aquele processo, exalando um cheiro que inunda a casa inteira (e servir de convite para os mais próximos) até chegar na minha xícara costumeira, com a borda já lascada e que me incomoda ao levá-la aos lábios que acham que vão encontrar apenas o conforto de um simples café. Hoje eu apenas escolhi viver isso, sentir isso, agora.

Essas escolhas são inevitáveis: sentir ou deixar para saber disso amanhã. Por hoje quero apenas pegar minha xícara, morninha com o líquido que acabei de despejar, e observar que as luzes de fora acenderam; aviso que de que o tempo passou e já é noite, necessária a luz para continuarmos a ver, lá fora. 

E aqui, de onde observo isso, já é iluminado. Ou melhor, está iluminado porque entendi que estender a roupa me dá tempo para sentir, rever prioridades, entender o que acontece comigo e ao meu redor. E de novo, nem estou falando que virei lavadeira.

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