Você foi meu disco inteiro
A gente claramente se quer. E esse fato, ainda que emocional, dói na carne. Dói porque não podemos torná-lo palpável a ponto de nos querermos e nos termos.
Entenda, meu bem, nos querermos não é um problema, efetivamente. O que nos impede aqui é o excesso de realidade, aquela da qual prometemos fugir sempre que nossos encontros eram só nossos, em segredo.
Temos compromissos que não nos pertencem em comum. Saímos de uma pequena possibilidade, de uma hipótese distante, sem data de escolha, e passamos a ser decisão perigosa; e deliciosa.
Lembrar de você me faz discordar diariamente das pequenas imposições que eu assumi como minhas, me faz querer desatar qualquer compromisso que me coloquei a firmar... era uma outra vida, outro olhar, àquela época achei que isso seria eterno. Medi minhas vontades pela necessidade de viver uma vida que claramente não é minha.
Você é: minha vida e meu.
Pois bem, meu bem, não é falta de querer, dá pra ver. Mas somos de outros, e os outros nos têm pela metade. A metade que nos faz responsáveis. A nossa metade, aquela que conhecemos entre nós dois, é libertina, é audaz e por fim, insondável. Ainda bem, por essa natureza mantemos o que tem que ser mantido sob nossos olhos apenas.
E isso dificulta tudo também. Como não sentir o que já se sente? Como não querer o que já se quer? Até podemos falar isso tudo bem baixinho, ao ouvido, mas o sentir... ah, esse é escandaloso, fulgurante.
E, justamente por isso, meu bem, mando esse bilhete. Sem perguntas, sem esperança de qualquer resposta, é sem volta mesmo; até pra que eu nem fique na expectativa sôfrega de me arranjar uma solução que eu não poderei acatar. Não me faça promessas, deixe o silêncio entre nós jurar sigilo eterno e arcano. Vai ser melhor assim, pra mim, pelo menos. Seja apenas minha lembrança clandestina. Será minha parte mais gostosa da vida que não vivi, memória apócrifa.
Assim é, meu bem! A negativa de você em mim, apagar suas digitais... será mais doloroso do que eu programei ser. E o choro, o sofrimento tem que ser inaudível, sozinha passo por isso, afinal, você nem é alguém. Um dia desistimos das regras, e foi desbravador desobedecê-las. Só que temos uma realidade, e ela não nos colocou em um lugar comum.
Só fica o registro de que o que vivemos, ainda que sem espectadores e nem cúmplices (e essa era a natureza do que passamos), será eterno em algum lugar de nós. Mas só em nós. E nessa etapa da vida faz todo o sentido aquela frase dita ao vento, por alguém que muito amou, sem contexto e nem destino: de vez em quando acontece da gente encontrar alguém dentro de uma canção.* Você foi meu disco inteiro.
*Frase da escritora Viviane Lucas

Comentários
Postar um comentário