Como fazer o luto da vida que nem cheguei a viver...

A dança suave que a cortina do quarto fazia todas as manhãs era o meu despertar. Ora a luz entrava, ora se escondia nas leves linhas azuis emaranhadas numa linda cortina de crochê que enfeitava meu quarto. 

A transição da claridade entre entrar, revelar-se e esconder-se, ocultar-se me gerou a sensação quase que poética de clareza e mistério. Recado do Universo ou apenas eu querendo ver o que que me faz sentido mesmo?

Deixei o sol bater com força nas bochechas meio descobertas até me incomodar. Era apenas uma quinta-feira, sem expediente pelo feriado que nem ouso tentar lembrar, a cama pede-me mais companheirismo em dias assim e me faço complacente e fico! Só mais alguns minutos, o cheiro do café que paira no condomínio inteiro me desperta, a ânsia por uma xícara é todo o meu incentivo.

Água no fogo, pós a esperar no filtro, vou à janela da cozinha verificar o dia por inteiro. O prédio está tranquilo, as mesmas flores alegram a floreira da vizinha do terceiro andar, o cachorro do outro lado do bloco continua a latir incessantemente e o vizinho da frente me encara como se tivesse me observando há tempos... Finjo, finjo fortemente que nem o vi.

Passo o café, finalmente, e sento-me na beirada do sofá com preguiça de abri-lo por inteiro. O primeiro gole veio-me como um soco no estômago. Sinceramente não acho que tenha sido o café, minto pra mim para não ter que confessar que o que me deixou desconcertada foi o olhar do outro lado do apartamento que, imagino, ainda estar ali.

Como esquecer o que nem era para ter existido? Como explicar o que não teria explicação, mesmo se eu tentasse? Melhor deixar assim e me forçar a viver um luto do que nem cheguei verdadeiramente a viver. Esquecer as mensagens trocadas em momentos inapropriados, mas tão oportunos, dos abraços escondidos dentro do carro, dos beijos roubados tão rápidos que quase seriam esquecidos se não fosse pelo detalhe de serem seus...

Não posso ter registro de nada disso e ainda assim estão marcados em mim, ficam pulsando como se tivessem esperando o momento de voltarem a acontecer.

Quero sair do seu campo de visão, então, sento-me no chão, abaixo da linha da janela e sinto o piso gelado em contraste com o café ainda quente que me desce a garganta. Um gole doído, certamente era mais do que o café que descia... era o segredo que temos que manter.

Não poder dar andamento em tudo entre nós foi uma decisão conjunta e ainda assim parece que vivo um luto solitário. Não posso correr para você e pedir consolo, não posso olhar seu sorriso sem disfarçar o desejo dividi-lo contigo. A firmeza do que temos que viver por não ficarmos juntos não me tira a melancolia de viver como se realmente estivesse num pesar imenso, uma perda do que nunca foi meu. E eu sei, racionalmente sei, que é o melhor a se fazer!

É só uma quinta de manhã e já estou num emaranhado de pensamentos que não me fazem bem. Me forço a acreditar que é melhor assim, ‘o quase’. Acho o controle da televisão perdido embaixo da cômoda, ligo o aparelho e tento me distrair com qualquer imagem que me apareça na frente. A xícara já está vazia, mas para evitar qualquer encontro, fico ali mesmo, tentando catar o resto da minha vergonha e brio, juntos na mesma situação inconsequente.

Como são incríveis e perfeitos os ‘quase’ da vida, não? Quase ficamos juntos, quase largamos tudo, quase nos deixamos levar por situações rasas e imprudentes. Que o ‘quase’ reine, que nos leve em memória aos lugares que estivemos juntos e isso baste. Justamente por não ter tido um início, não terá fim, já pensou nisso? 

De qualquer forma, encerro esses pensamentos inúteis e me coloco embaixo do chuveiro. Que a água leve esses registros do meu corpo e que essa melancolia de pensar que fomos apenas ‘quase’ me fortaleça para o próximo acontecimento avassalador. Até porque, para nós, intensos, as situações vêm... mas também as deixamos ir na mesma medida. Assim, abre-se espaço para aventuras que não precisam se perguntar: podemos, será?

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