Acho que chegamos cedo demais para o nosso compromisso

Não sei se inicio esta carta com um ‘bom dia’, ‘boa tarde’ ou ‘boa noite’. O tempo é tão efêmero que essas expressões que tentam denotar uma fração dele mesmo acabam ficando inúteis. Principalmente porque não sei exatamente quando vai abri-la... de qualquer forma, deixemos os cumprimentos de lado, apesar de que eles realmente aqui cabem, não temos mais a intimidade de antes...

Lhe escrevo mesmo porque eu tinha que me posicionar. Não que já não tivesse feito em tempos outros, mas acho que todas as outras vezes o fiz mais como uma brincadeira de quem manda na situação do que de quem quer, realmente, colocar o que sente às claras.

Escolhi essa forma, unilateral (até certo ponto, sei) para que não me chegue imediatamente com seus argumentos convincentes e me faça mudar de ideia. Preferi nem escutar sua voz para que minha firmeza se estabeleça e não se encolha na primeira nota que me fizer escutar.

Em algum tempo de nossa juventude nos gostamos por demais. Sei disso porque eu estava lá, e você também. Eram olhares, abraços, carinhos, telefonemas, mensagens, fotos, bombons, cartas. Sim, jovens e ainda assim tínhamos a escolha de estarmos juntos e o fizemos. 

Em algum instante isso mudou. E foi num instante. Não tivemos tempo de não nos querer. Ainda vivíamos o frenesi de nossa companhia. O distanciamento foi praticamente um acordo silencioso. Os olhares pouco se cruzavam, os abraços eram mais amigáveis, os carinhos inexistentes assim como os telefonemas. Ficaram as mensagens não apagadas, as fotos reveladas, as cartas guardadas e os bombons... destes realmente só as lembranças.

E pensando hoje, acho que nos conhecemos fora do tempo. Como se tivéssemos um compromisso e chegamos cedo demais.

Acho que teria gostado muito mais da minha versão atual... hoje tenho mais de 30 anos, não quero acordar cedo aos domingos para correr, tomo meu café preto antes de comer qualquer coisa, escuto músicas no fone porque quero elas só pra mim, não quero ficar milionária (acho que nunca quis na verdade), não quero aprender xadrez, mas ainda gostaria de ter aulas de bateria. Quero escrever mais livros (pode ficar abismado, já tenho alguns) e fazer mais fotos conceituais de qualidade, não quero uma viagem internacional, mas quero muito curtir a culinária do norte do Brasil. Algo ainda ficou...meus cabelos ainda são lisos (lhe disse que eram naturais), cheiram a pitanga porque ainda é meu perfume fresco favorito e continuo a preferir vestidos confortáveis.

E é por ter certeza de que gostaria mais da minha versão hoje, e por eu saber que eu ego me levaria até você para comprovar isso, é que lhe escrevo. É uma simples carta apenas para dizer que fique aí mesmo. Não venha, não tenha a ousadia de vir. Não me mande lembranças do que fomos. Não quero saber que ainda lembra daquele CD que me deu. Não quero saber que sua barba está maior - e isso me afeta de uma forma tão positiva. Não quero saber que sua cadela ainda o acompanha em todas as cidades pelas quais passou. Não faça isso comigo, contigo e nem com eles.

É num momento desses, em que a vida está ‘redondinha’, acontecendo, sem vulnerabilidades aparentes, quando estamos organizados, que esse perigo é maior ainda. Você não cabe aqui, não mais.

Acho realmente que nos precipitamos, em tudo: no encontro e, inevitavelmente, no distanciamento. Nos encontramos cedo demais, mas já cumprimos nosso compromisso. Se não entendeu, feche a carta e releia amanhã, quem sabe a lucidez venha numa releitura de mim, também.


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