Já era você em mim...

A cafeteria estava cheia naquela tarde. Bem, cheia em comparação aos dias anteriores; eu estava ali também nos dias anteriores. Naquela quinta, nem quente nem fria, o cardápio dava destaque aos biscoitinhos de canela assados. Lembro bem disso porque, os tais biscoitinhos estavam saindo do forno. Aroma doce e levemente picante pairou no ar, e foi neste exato momento que escutei o sininho da porta. 

Sim, é uma cafeteria de bairro, antiga, com seus vitrais mais foscos pelo passar dos anos do que descuido firmado ou limpeza sem frequência. E em sua porta de madeira, além do ranger comum das dobradiças mais antigas do que as xícaras de porcelana branca, ela ainda tinha aquele charmoso e clichê sininho acima da porta, aqueles que marcam a entrada bem-vinda de um novo cliente ou saída que deixa notícias tristes...

E naquela quinta, o tilintar do sininho me envolveu com o calor que me chegou doce, da canela, dos biscoitinhos e da sua entrada – avisada – mas sem olhares a notar. A não ser o meu, mesmo.

E isso não fazia a menor diferença (ser notada ou não). Você dava a impressão de ser autossuficiente. Chegou com um enorme sorriso, deixou a porta fechar-se sozinha e pôs-se a procurar quem a aguardava. Fiz o mesmo, curioso procurei! Queria saber quem era a pessoa de grande sorte por conseguir ficar em sua companhia naquela tarde de quinta tão comum.

Na verdade, não sei se era curiosidade pela vida alheia mesmo - a minha era tão desinteressante - ou se senti uma pontinha de interesse genuíno por você. Fazia semanas que eu acompanhava sua entrada, dia sim, dia não. Não por mim, meus cafés são diários.

Café com leite, um pouquinho de açúcar e raspas de limão. Não esqueça da espuminha... ah, para acompanhar os deliciosos e frescos biscoitinhos de canela. Dois, para ser exata. Eu decorei seu pedido, tal qual saiu dos seus lábios tão delicados e calmos.

Já sentada, com sua companhia que, para minha sorte, parecia uma amiga, soltava risos confidentes, como quem ri de uma nota no rodapé de um livro, escrita em letras miúdas apenas para o leitor atento aos pequenos detalhes deixados pelo escritor, fazendo uma conexão intimista. Peguei pra mim esse sentimento e ri, ali no balcão, sozinho; ri contigo, quis ser seu confidente oculto.

Acho que notou, olhou pra mim imediatamente ao escutar o som espalhafatoso do meu riso solto. Deixei de ser oculto e enrubesci. Não por ter sido pego no ato, mas porque, finalmente, notou-me. O peito chegou a palpitar ainda mais insistente, saindo do meu compasso normal. Apalpei o bolso esquerdo, como se quisesse segurá-lo ali, guardando-o no devido lugar. Não era hora.

Subi a xícara de porcelana branca até aos lábios para disfarçar o meu descobrimento indevido. Café frio, acalmou-me. Mas ainda escutava o som lilás da sua voz, impossível entender o que falavam, e isso era o que menos importava. Nem sei quanto tempo passei ali, a te escutar, a prestar atenção em cada nuance da sua voz. Notei ser tarde porque a placa de ‘fechado’ já estava na porta (e pelo olhar da garçonete, há algum bom tempo) e você, já em direção à saída. Eu estava na expectativa do ecoar fino do sino, avisando de sua partida (e chegada somente no sábado), quando notei que não abriu a porta. 

Você não abriu a porta. Eu te olhei, como um espectador, de prontidão para a cena do espetáculo que estaria por vir. Eu te olhei, cruzamos os olhares, pela primeira vez. Fingi normalidade, casualidade pra ser exato. Mas não consegui manter por mais de três segundos... senti desmanchar-me bem na sua frente. Acho que notou! Como não também?

Sem muita ‘meia hora’ pegou em minha mão, parecendo que estava querendo me dar um aviso... e ele veio: no sábado, sente mais perto. Será um perfume novo, se ficar tão distante pode ser que não o note desta vez.

Não havia palavra que eu pudesse dizer se não: ok! 

Foi nesse momento, em rápidos lapsos de memória, lembrando os dias passados, entendi que, dia sim, dia não, o café tinha gostos distintos... e desconexos. Ora lavanda, outro dia jasmim. Achei que não apreciava o café daquele lugar mais, mas entendi que já era você em mim!

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